segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

 
 Se por um instante

Gabriel Garcia Marques


“Se, por um instante,
Deus se esquecesse de que sou uma marionete
de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida,
possivelmente não diria tudo o que penso, mas,
certamente, pensaria tudo o que digo.
Daria valor as coisas, não pelo que valem,
mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais,
pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos,
perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais parassem,
acordaria quando os outros dormem.
Escutaria quando os outros falassem e
gozaria um bom sorvete de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida,
vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo,
deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração,
escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse.
Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre
estrelas um poema de Mario Benedetti e uma
canção de Serrat seria a serenata que ofereceria a Lua.
Regaria as rosas com minhas lagrimas para
sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida.
Não deixaria passar um só dia sem
dizer as gentes - te amo, te amo.
Convenceria cada mulher e cada homem que
são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.
Aos homens, lhes provaria como estão
enganados ao pensar que deixam
de se apaixonar quando envelhecem, sem saber
que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança, lhe daria asas,
mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não
chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...

Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade esta na forma de subir a escarpa.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta
com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai,
o tem prisioneiro para sempre.
Aprendi que um homem só têm o direito de olhar um
outro de cima para baixo para ajuda-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês,
mas, finalmente, não poderão servir muito
porque quando me olharem dentro dessa maleta,
infelizmente estarei morrendo.”


Belo, intemporal, um bem para a alma





sábado, 1 de dezembro de 2012